Resenha: O Doador de Memórias – Lois Lowry

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Na sociedade do futuro nada jamais é inesperado, cada etapa da vida já foi pré-estabelecida para que não aja inconvenientes. Um mundo sem cor; onde pessoas não sentem e não tem emoções. Onde doenças já não existem mais, nem a dor, tristeza ou raiva… assim como não existe prazer, felicidade genuína, compaixão ou amor.

As pessoas são como máquinas sem qualquer espontaneidade. O que fazer, o que vestir, como agir… nada é escolhido por elas. Quando atingem certa idade, descobrem qual profissão irão exercer dali em diante; mais tarde recebem um conjugue, e depois um casal de filhos lhes é designado. E assim, geração após geração, vão sobrevivendo desta maneira, sempre nessa mesmice. Ainda que quisessem mudar, não poderiam, pois não tem conhecimento de nenhuma outra forma de vida além dessa; não lembram de como foi antes, pois pra elas o “antes” não existe. O passado não existe. As memórias não existem.

A única pessoa que sabe a respeito disso é um senhor solitário, ao qual chamam de Recebedor, pois guarda dentro de si toda a sabedoria e o conhecimento sobre este passado que as pessoas desconhecem. Este cargo já o pertence há muito tempo. Mas agora, com a velhice chegando, ele já não tem forças para continuar carregando esse fardo sozinho; por isso precisa escolher um novo Recebedor.

Jonas é um garoto de 12 anos, que assim como todos os outros tem sua vida guiada e seus sentimentos e emoções apagados com pílulas que foi ensinado a tomar diariamente. Ele tem um melhor amigo, Asher, e uma menina (eu diria “por quem é apaixonado” se as situações fossem diferentes, mas como não são…) de quem gosta. Não há nenhuma diferença entre ele e qualquer outro jovem de sua idade, exceto pelo fato de que, às vezes, por um milésimo se segundo, Jonas enxerga cores. Mas sua vida inteira muda no dia da Cerimônia de Atribuição, quando é escolhido como sucessor do Recebedor de Memórias.

A partir daí, Jonas começa a se encontrar com ele, e todos os dias o velho lhe doa memórias. O garoto passa a enxergar o mundo de um jeito que nunca havia visto antes, a ouvir, a ver e a sentir coisas que jamais imaginou. E descobre que antigamente existiu um mundo completamente diferente daquele no qual foi criado. Um mundo com guerra, violência e destruição, com mortes, dores e sofrimento; mas onde também houve coisas bonitas, onde as pessoas sentiam alegria verdadeira, onde tomavam suas próprias decisões, sentiam prazer e sabiam o que era amar. O garoto começa a avaliar essas descobertas e se perguntar qual dos dois mundos é o melhor, este adaptado e bem mais evoluído no qual vive ou aquele arcaico que as pessoas optaram por esquecer. E quando ele finalmente chega a uma conclusão, precisa ter cuidado, pois qualquer atitude que tomar pode interferir na vida da sociedade inteira e mudar tudo.

Bem escrito, intenso e infelizmente com poucas páginas, O Doador de Memórias fala sobre um mundo completamente novo e sobre um garoto que, ao libertar sua mente do controle que exerciam sobre ela, começa a questionar este mundo ao qual pertence. E junto com ele, nós, leitores, também somos induzidos a pensar sobre isso. É um livro mais mental do que físico; não tem tanta ação quanto Divergente, por exemplo, mas questiona e explora a mente de um jeito profundo… gostei bastante disso.

Jonas é um protagonista fantástico, me ganhou logo de cara. Tem algo nele, não sei se é a idade, o fato dele ser inteligente mesmo enquanto ainda era controlado, a inocência ou a ingenuidade que apresenta no inicio… mas algo me fez o aceitar muito bem.

O livro é uma distopia (como tantos outros que estão bombando agora), mas não é recente, apenas a sua fama é. E isso torna tudo ainda mais interessante. Então, pra quem curte esse tipo de literatura, O Doador de Memórias é uma ótima pedida. Recomendo sem medo ou restrições 🙂